Multifuncionalidade dos tempos modernos!
Um dia desses entrei numa lotérica para pagar uma conta de telefone e vi sobre um dos guichês de atendimento a seguinte mensagem: “caixa preferencial para jogos”. Achei redundante aquela mensagem, afinal, estava dentro de um estabelecimento montado com a finalidade de “realizar jogos”. Mas isso parecia ser necessário porque as filas para pagamento de contas na casa lotérica eram maiores que aquela para “tentar a sorte”... Por isso, pensei, é preciso deixar pelo menos um guichê preferencial para aquilo que era, em princípio, a finalidade daquele estabelecimento. Peguei-me rindo sozinho, enquanto meditava em várias outras situações semelhantes de nosso cotidiano.
Vivemos no tempo da multifuncionalidade. O celular, por exemplo, é multifuncional: câmera fotográfica, rádio, gravador, câmera de video, mp3, despertador, agenda, possui acesso a internet, jogos e dá até para receber e fazer chamadas telefônicas...
Já não é estranho pararmos com o carro num posto de gasolina para comprar uma barra de cereais na loja de conveniências; nas drogarias é possível encontrar muitos produtos, e as vezes, você consegue encontrar medicamentos também...; no mercado você pode retirar dinheiro no “banco 24 horas” e se quiser recarregar o seu celular pré-pago poderá fazê-lo na padaria.
Não sou contra essa maneira multifuncional de organização. Ter tudo num único lugar já é constitutivo do mundo moderno que racionalmente cultua a “santa praticidade”. Não é de todo ruim.
Não estranhe se algum dia você entrar numa Igreja e alguém na porta lhe perguntar: “o que desejas?” Afinal, são tantos serviços oferecidos por nossas comunidades que muitos entram ali para procurar um advogado, um psicólogo, um terapeuta, ou saber sobre o curso de bordado, de música, de eletricista, artesanato... Sim, eu sei, é verdade, alguns ainda entram para rezar e, se estiver com sorte, conseguirá até encontrar-se com o padre...
Outro dia vi uma faixa na entrada da Igreja: “Aqui é lugar de oração!” Que bom saber que aqui também se pode rezar. A que ponto chegamos – pensei. Entendo que haja uma multifuncionalidade na comunidade eclesial e concordo que os talentos particulares e carismas devem ser disponibilizados para o bem comum. Isso é bíblico e belo. Mas, ser necessário recordar aos fiéis que a Igreja também “é lugar de oração” é, no mínimo, preocupante.
Por fim, é comovedor ver o nosso povo formando filas para receber uma cesta básica ou uma senha para a retirada dos presentes no dia das crianças em nossas Comunidades. Só espero que um dia não precisemos colocar um cartaz no corredor central com a inscrição: “preferencial para receber a eucaristia”.
Fraternalmente,
Rogério Soares
Presidente do Conselho Estadual da RCC SP
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